IAPAR

15/08/2019

Estudo analisa três décadas de mudanças na cafeicultura brasileira

Estudo analisa três décadas de transformações na cafeicultura brasileira (15/08/2019) A cadeia produtiva de café passou por uma grave crise no final do século passado, com reflexos que são percebidos até hoje. O colapso do Acordo Internacional do Café, em 1989, e a extinção do Instituto Brasileiro do Café (IBC), em 1990, deram fim ao modelo de políticas regulatórias que vigorava desde o Século 19. Expostos ao livre mercado, os cafeicultores passaram por um longo período de baixos preços do produto.

Para entender os impactos dessas mudanças, pesquisadores do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) e da Universidade Estadual de Londrina (UEL) estudaram a evolução da cafeicultura ao longo de 30 anos, de 1984 a 2015. O resultado do trabalho foi recentemente divulgado em artigo publicado no periódico PlosOne, uma revista científica on-line de acesso livre.

O economista Tiago Santos Telles, pesquisador do Iapar, explica que o principal objetivo do estudo foi conhecer a dinâmica das microrregiões produtoras após a desregulamentação do comércio. Os autores tomaram o levantamento Produção Agrícola Municipal (PAM) – realizado anualmente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) –, e aplicaram ferramentas estatísticas para analisar correlações e agrupamento de dados sobre produção, produtividade, área ocupada pela cultura, espécie cultivada, preço internacional, valor bruto de produção (VBP) e uso de crédito.

Segundo Telles, não houve grande alteração no número de microrregiões especializadas em café, mas sim na sua distribuição. Paraná e São Paulo perderam a liderança na produção, posição que passou a ser ocupada por Minas Gerais e Espírito Santo. Rondônia, Bahia e até Ceará passaram a figurar como produtores. “Fica também evidente a grande heterogeneidade em termos de espécie cultivada, sistema de produção ou uso de crédito rural”, avalia.

CRISES – Em meados do Século 19, o Brasil se tornou o maior produtor mundial de café. E também tiveram início políticas de governo para regular a oferta do produto. Ao longo dos anos, em diferentes momentos, foram adotadas medidas como a proibição de novos plantios, aquisição para formação de estoques reguladores, erradicação de cafezais e até destruição de parte das safras.

O Brasil fez sucessivas tentativas de reunir países produtores e, depois, também os consumidores. Em 1962 foi assinado o Acordo Internacional do Café, que definia mecanismos de cooperação técnica e critérios econômicos para o comércio do produto, com base em cotas. Um ano depois era criada a Organização Internacional do Café (OIC).

Esse acordo foi renovado diversas vezes, mas em 1989 os países signatários não se entenderam. O sistema de cotas de exportação entrou em colapso e, pela primeira vez na história, o comércio do grão foi desregulamentado. Acrescente-se a esse quadro a extinção do Instituto Brasileiro do Café (IBC), no ano seguinte. “A passagem ao livre comércio foi traumática – os preços caíram drasticamente e o setor enfrentou um longo período de crise”, resume Telles.

Com o mercado regulando o comércio, os países produtores tiveram de traçar novas estratégias de produção e posicionamento. “O Brasil optou pela produção em escala, valendo-se da abundância de terra, água e mão de obra; a Colômbia, outro grande produtor, investiu em diferenciação do produto e marketing”, exemplifica o professor Carlos Eduardo Caldarelli, da UEL.

RESULTADOS – Das 102 microrregiões especializadas na produção de café constatadas em 1984, restaram 90, em 2015. Minas Gerais e Espírito Santo assumiram o protagonismo da produção, Bahia e Rondônia também ganharam importância. Em contraponto, houve declínio nos tradicionais produtores Paraná e São Paulo.

Dentre essas 90 microrregiões, o estudo identificou o cultivo de arábica em 66, conilon em 13 e de ambas as espécies nas 11 restantes. Minas Gerais e Bahia passaram a concentrar a produção de arábica, e Rondônia, de conilon. No Espírito Santo há microrregiões especializadas tanto na primeira como na segunda espécie.

As microrregiões produtoras foram ainda classificadas em quatro grupos, ou “clusters”. No primeiro são catalogadas 47 microrregiões especializadas em arábica e com pouca utilização de crédito rural. Estão distribuídas por Minas Gerais (21), São Paulo (7), Bahia (6), Rondônia (4), Espírito Santo (2), Goiás (2), Paraná (2), Ceará (1), Pernambuco (1) e Rio de Janeiro (1).

No segundo grupo foram agregadas 29 microrregiões especializadas em arábica e com grande utilização de crédito rural. Estão distribuídas por Minas Gerais (21), São Paulo (3), Bahia (2), Espírito Santo (2) e Rio de Janeiro (1).

No terceiro grupo entram as microrregiões de Linhares, Colatina e Nova Venécia, todas no Espírito Santo, especializadas em conilon e com alta utilização de crédito rural.

Já o quarto grupo é integrado por microrregiões do Espírito Santo (6), Minas Gerais (2), Rondônia (2) e Bahia (1), também especializadas em conilon, demandadoras de crédito rural e situadas principalmente no Vale do Rio Doce e Vale do Mucuri.

Telles aponta que esses resultados revelam como a produção brasileira se reorganizou frente à reacomodação dos agentes internacionais na formação dos preços e à estratégia adotada pelo Brasil para o setor.

“A cafeicultura brasileira não perdeu importância, tornou-se altamente tecnificada, com produtores especializados na atividade”, avalia Telles.

Para Caldarelli, o desafio que se apresenta ao Brasil é deixar de competir com altas quantidades a preço barato. “Precisamos de produtos diferenciados em que se paga pela marca”, conclui.
 
ARTIGO – Juntamente com Telles e Caldarelli, assinam o artigo os pesquisadores Bruno Volsi e Márcia Regina Gabardo da Câmara, ambos da UEL. O texto completo, em inglês, pode ser obtido aqui.


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